Sridevi: a primeira superstar de Bollywood


Poucas pessoas podem considerar a si mesmas como estrelas. Estrelas brilham e deixam um impacto em seu público. E se poucos são estrelas, menos ainda são superestrelas. Superstars estabelecem novos caminhos, inspiram legiões e deixam legados inapagáveis na história do cinema. Sridevi foi a primeira mulher a adquirir o status de superstar no cinema indiano. Em diversas línguas e indústrias de cinema, atingiu um status gigantesco em toda a Índia que é até hoje impensável para outros artistas.

Poompatta (1971)
Shree Amma Yanger Ayappan nasceu no estado indiano de Tamil Nadu em 1963 e teve um início de carreira precoce. Algumas fontes informam que seu primeiro filme foi aos quatro anos de idade, enquanto outras informam que foi aos cinco. Muitos afirmam que sua estreia se deu no filme Kandhan Karunai (1967) e outros, que foi em Thunaivan (1969). Ao longo de sua carreira atuou em várias línguas, como tâmil, telugu, kannada, malayalam e hindi. Seu talento foi reconhecido desde cedo e ganhou maior projeção ao receber o  prêmio de melhor atriz mirim do estado de Kerala pelo filme Poompatta, de 1971. Neste filme Sridevi viveu uma menina que perde a mãe e passa a sofrer maus-tratos ao ir morar com a amiga que a pega para criar.

Crescer em frente às câmeras não era exatamente o esperado de alguém com o temperamento de Sridevi. Tímida, introvertida e muito silenciosa, ela chegava ao estúdio acompanhada por sua mãe, gravava suas cenas e logo ia embora para casa. O mundo de intensa socialização e holofotes não combinava com sua personalidade. Sobre sua atípica infância, Sridevi declarou:"Eu perdi a vida de ir para escola e para a faculdade, mas entrei para a indústria do cinema e trabalhei sem pausa - de atriz infantil, fui direto para heroína. Não havia tempo para pensar e sou grata por isso. Para ganhar algo, você tem que perder algo. Não se pode ter tudo na vida. Então sou feliz pelo que consegui."


Thunaivan (1969)

O primeiro papel de heroína veio em Moondru Mudhichu (1976), estreando com ninguém menos que os aclamados Kamal Hassan e Rajinikanth, que viriam a se tornar parceiros constantes de cena. Ela tinha apenas 13 anos quando interpretou o interesse romântico disputado pelos protagonistas masculinos da história. Sridevi era como um interruptor: apesar de tímida e muito inocente, se iluminava imediatamente assim que ficava diante da câmera. Fazia muito bem e de imediato qualquer coisa que fosse exigida em cena, sendo reconhecida por seu profissionalismo e trabalho duro. Seu constante parceiro de cena, o também superstar Rajinikanth, a descreveu:

"Ela sempre foi uma pessoa quieta e infantil por trás da câmera. Mas quando a câmera ligava, ela se transformava em fogo. Como corrente elétrica, era assim que ela atuava. Ela nunca teve uma briga com ninguém nos sets. Eu me impressionei com seu sucesso em Bollywood sem saber uma única palavra em hindi. Ela era uma atriz nata."

Após uma carreira de enorme sucesso nas indústrias sulistas e muitas parcerias com Kamal Hassan e Rajinikanth, Sridevi fez sua estreia em Bollywood com Solva Sawan, em 1979. O filme era um remake de seu filme tâmil 16 Vayathinile, mas diferentemente do caminho seguido pelo original, a versão hindi foi fracasso de público e crítica.

Solwa Sawan (1979)
Mesmo com a estreia frustrada no cinema hindi, o sucesso continuava nas indústrias sulistas. Moondram Pirai surgiu neste período como um dos maiores marcos da carreira de Sridevi por seu papel dramático como uma jovem que sofre de amnésia e regride à infância. Sua atuação rendeu o prêmio de melhor atriz do estado de Tamil Nadu. Durante estes anos a atriz também foi agraciada com dois prêmios Filmfare do cinema sulista, por suas atuações em 16 Vayathinile e Meendum Kokila.

O sucesso na indústria hindi finalmente chegou em 1983 com Himmattwala. Sua parceria com Jeetendra, as danças e visuais do filme marcaram os anos 80. Graças a este sucesso Sridevi não desistiu de atuar em Bollywood, porém a atriz também reconheceu o impacto artístico do filme sobre os próximos anos de sua carreira. Ele fez com que o público não prestigiasse seu elogiado trabalho em Sadma (1983), remake de Moondram Pirai.

"Nos filmes tâmil, eles amam me ver atuar naturalmente. Mas nos filmes hindi eles querem muito glamour, riqueza e masala. Meu azar foi meu primeiro sucesso em filmes hindi ter sido um filme comercial."

Com Jeetendra em Himmatwala

Sridevi tornou-se o rosto mais importante dos anos 80. Após o sucesso de Tohfa em 1984, tornou-se a atriz número um da indústria. Seu par mais frequente foi Jeetendra, com quem contracenou impressionantes dezesseis vezes. Em 1986 interpretou o marcante papel principal de Nagina, no qual faz uma nagini (cobra que consegue assumir a forma humana) que busca vingança pela morte do marido. O parceiro de cena Rishi Kapoor disse que ela carregou o filme nas costas. O filme centrado na heroína a estabeleceu como a estrela que atraía as pessoas para o cinema independentemente de um herói, grande feito especialmente durante a difícil década de 80.

Nagina (1986)


Canções de comédia eram as favoritas de Sridevi, que tinha talento para o gênero. E foi nele que brilhou no icônico papel de uma jornalista divertida em Mr. India (1987), o primeiro grande filme de super-herói de Bollywood. Neste filme está presente sua sequência favorita da carreira, na qual imitou Charlie Chaplin. Sua canção cômica Hawa Hawaii tornou-se um clássico instantâneo, recebendo homenagem de Vidya Balan anos depois no filme Tumhari Sulu (2017).

Mr. India (1987)

Roubar a cena dos protagonistas homens ou fazer filmes focados em suas personagens seguiu sendo a especialidade de Sridevi. Em 1989, já estabelecida como a atriz mais bem paga da indústria, ela pôde mais uma vez mostrar sua versatilidade em Chaalbaaz, remake do clássico Seeta Aur Geeta (1972). Nele interpretou gêmeas separadas ao nascer, sendo uma tímida e submissa e a outra atrevida e vinda das ruas. A atuação rendeu seu primeiro Filmfare pelo trabalho em um filme hindi, momento que definiu como um dos mais inesquecíveis de sua vida. O sucesso mais uma vez foi certeiro e abriu portas para a maior consagração: ter o nome de sua personagem como título daquela que se tornaria uma das maiores referências para futuras heroínas de Bollywood.

Chaalbaaz (1989)

Yash Chopra definiu Sridevi como a mocinha dos sonhos de todos os indianos ao escalá-la como protagonista de Chandni (1989). Ela pôde mostrar diversas facetas de seu trabalho, tendo alguns momentos de comédia e belíssimas sequências de dança em meio à carga dramática da história de uma mulher cuja vida muda completamente após uma tragédia afastá-la do homem que amava. Mais que uma personagem, Yash Chopra e Sridevi construíram um conceito atemporal na figura de Chandni, personagem doce e celestial em suas vestes brancas. O figurino branco tornou-se uma febre na Índia e todas as meninas queriam copiar o "Chandni look". Yash Chopra discorreu sobre a personagem, o valor cobrado pela atriz e o processo de trabalho altamente focado de Sridevi:

"Com Mr. India e Nagina, o potencial foi tocado, mas ainda está em processo de ser explorado. Com Chandni, ela superou todas as minhas expectativas. Ela nunca foi fotografada com tanto amor. Ela usou de minissaias a sáris de todos os tons pastel possíveis. E não há estampas, nem bordados, nem riquezas em seus sáris. Ela não precisa disso; ela parece etérea em roupas simples. E daí que em termos de preço ela não fez nenhuma concessão?

Ela fala apenas sobre seu trabalho. Não é que ela seja rude com ninguém, mas também não é amigável. Eu sinto que ela está intensamente envolvida com sua família, sua mãe, sua irmã. Como atriz, ela tem essa capacidade de se infiltrar no papel. Ela mergulha completamente no papel. Quando a câmera está desligada, ela tem uma personalidade totalmente diferente, preocupada com suas próprias coisinhas. Mas quando a câmera é ligada, há uma transformação magnífica. Acho que ela consegue isso se desligando totalmente do mundo durante uma cena. Seu poder de concentração é feroz. Essa Chandni é luminosa, ela incendeia a tela!"
 

Chandni (1989)


Ambos voltaram a trabalhar juntos em Lamhe (1991), fracasso de público que atraiu mais elogios da crítica especializada para o trabalho de Sridevi. Os anos 90 não trouxeram grandes sucessos para a atriz, que seguiu tendo suas atuações apreciadas. Seu último trabalho no cinema antes de um período sabático de quinze anos foi Judaai (1997). Neste período Sridevi viu-se envolvida em um escândalo na sua vida pessoal, quando o produtor Boney Kapoor deixou a esposa e dois filhos para casar-se com Sridevi. Os dois tiveram duas filhas - a atriz Janhvi Kapoor e Khushi. Sridevi era uma mãe e esposa extremamente dedicada à família e muito próxima do marido e das filhas, cuidando até o último detalhe da estreia de Janhvi em Dhadak (2018), que infelizmente não conseguiu assistir. É comum atrizes em Bollywood deixarem a carreira após o casamento, porém o caso de Sridevi envolvia finalmente ter  a vida familiar tranquila que não conhecia desde a infância.

"Eu trabalho desde os quatro anos. Minha vida foi apenas gravações, estúdios e casa. Até o casamento e a maternidade, estive totalmente dedicada ao meu trabalho. Não via nada além disso. Eu fiz minha parte como atriz. Após o casamento, toda mulher quer se estabelecer e ter filhos. Eu não estou arrependida. Eu estava totalmente ocupada com o meu pequeno mundo, aproveitando cada experiência que surgiu no meu caminho."



"Casar e ter filhos foi uma experiência completamente diferente, e eu queria aproveitar cada momento - desde as minhas filhas dando os primeiros passos, até me chamarem de 'mamãe' e o primeiro dia na escola. Eu não queria perder nenhum momento das vidas delas. Aprecio a maneira como as mães que trabalham cuidam de seus filhos enquanto lidam com responsabilidades profissionais, mas senti que já havia feito o suficiente."

Lamhe (1991)

Em 2004 fez um breve retorno à atuação na novela Malini Iyer, protonizando a história de uma esposa do sul da Índia que tenta unir as tradições culturais da sua região às tradições nortistas do seu marido do Punjab. A experiência na televisão foi difícil para Sridevi por fazê-la passar longas horas longe das filhas pequenas. O esperado grande retorno ao cinema veio apenas em 2012. English Vinglish foi o filme definido por Sridevi para quebrar a pausa de quinze anos longe do seu público. A história escolhida refletiu sua sensibilidade para detectar boas histórias e também o momento de maturidade pessoal e profissional. No filme, sua personagem é uma dona de casa que redescobre sua autoestima e conquista o respeito da família que a subjuga e subestima ao secretamente aprender inglês. Sridevi soube aliar perfeitamente seu talento à uma percepção aguçada sobre os tempos atuais e novas possibilidades para atrizes no cinema:

"Eu sempre sigo meus instintos. Mais do que tudo, o personagem tem que me agradar. Não posso fazer coisas que fiz há 10 ou 20 anos atrás. Eu não vou mais me sentir confortável fazendo isso. Quero que minhas filhas tenham orgulho do que estou fazendo. Então, sim, obviamente, vou escolher filmes que tenham ótimas histórias e que não exijam que eu seja quem eu era anos atrás. Não faria sentido."

English Vinglish (2012)

O filme foi um sucesso de crítica e público, porém logo em seguida a atriz entrou em outro período de hiato. O último papel de Sridevi foi em Mom (2017), no qual interpretou uma mãe em busca de vingança após sua filha ser brutalmente estuprada. Mais uma vez ela conquistou todas as instâncias com seu trabalho. Por sua atuação, Sridevi recebeu postumamente o prêmio nacional de melhor atriz, que é considerada a premiação mais importante da Índia. Pela primeira vez o prêmio foi concedido postumamente.

Mom (2017)

Até o momento de sua trágica morte em fevereiro de 2018 por afogamento acidental em uma banheira de hotel, Sridevi pretendia nos presentear ainda mais com seu talento e amor ao cinema. Ela tinha planos de atuar em Kalank e estava especialmente investida no lançamento da filha Janhvi. Sua morte pegou a todos os fãs de cinema indiano desprevenidos e nos deixou devastados. Pudemos ver diversos artistas reconhecendo a profunda influência que Sridevi teve em suas carreiras, como Priyanka Chopra, que declarou:

"Ela foi a minha infância e uma das grandes razões pelas quais me tornei atriz. Referir-se a todos nós como meros fãs seria um desserviço para ela. Quando a notícia da sua morte foi divulgada, fiquei imobilizada. Tudo o que eu conseguia fazer era ouvir músicas de seus filmes, revisitar suas entrevistas e assistir suas cenas icônicas repetidas vezes. Eu sabia que não estava sozinha; milhões estavam sentindo aquela exata emoção de choque e perda. Sua conexão com o público era tão forte que cada um de nós tem memórias especiais ligadas a ela."

O legado dessa superestrela é inestimável. Em uma carreira de 50 anos que se confundem com seu próprio tempo de vida, ela deixou trezentos filmes em diversas línguas e de variados estilos, indo do mais comercial e glamouroso aos dramas simples e naturais com o mesmo brilhantismo e dedicação. Suas habilidades de dança encantaram gerações e seu estilo, espontaneidade em cena, disciplina e profissionalismo são marcos eternos aos quais artistas de gerações atuais e vindouras sempre irão aspirar. Que seu legado seja apreciado e honrado por artistas e fãs do cinema com a mesma paixão que Sridevi dedicou ao cinema.

4 comentários

  1. Texto maravilhoso!! Bateu vontade de procurar os filmes.

    Raquel

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    1. Obrigada, Raquelzinha! Sempre dando força nos comentários, faz tanta diferença pra quem escreve ter esse retorno 💜

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  2. Maravilhoso!!! Agradeço muito por seu retorno Carol.😍

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    1. Eu que agradeço pelo carinho de deixar um comentário :)

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