Gully Boy (2019)


Entre as mulheres diretoras atuantes em Bollywood, Zoya Akhtar desponta como uma das mais notáveis. Sua filmografia, iniciada em 2009 com o não tão bem-sucedido e aclamado pela crítica Luck By Chance, atingiu novos patamares com os sucessos de Zindagi Na Milegi Dobara  e Dil Dhadakne Do. Seus filmes são caracterizados por dramas humanos trabalhados com sinceridade e foco no mundo interno de seus personagens em contraponto às pressões sociais sofridas. Desta forma a diretora consagrou-se por atingir o que poucos conseguem: aliar crítica social e emoções à estética do cinema comercial, presenteando-nos com entretenimento da mais pura qualidade. Entretanto, pesava sobre Zoya a fama de realizar filmes apenas sobre pessoas ricas e seus mundos de glamour, tédio e hipocrisia. Ficava a dúvida: teria ela a capacidade de falar sobre os dramas dos humanos de outras classes sociais? É o desafio que foi colocado na produção de Gully Boy.

Inspirado nas vidas dos rappers Naezy e Divine, Gully Boy conta a história de Murad (Ranveer Singh), um rapaz pobre com poucas perspectivas de vida além de formar-se na faculdade e obter um emprego melhor que o do pai, que trabalha como motorista. Murad é morador das favelas de Dharavi em Mumbai e divide seu tempo entre ouvir rap, namorar em segredo a estudante de Medicina Safeena (Alia Bhatt) e acompanhar os dramas de sua família com a entrada da segunda esposa de seu pai em casa. Após fazer amizade com o aspirante a rapper Sher (Siddhant Chaturvedi) e conhecer a cena do hip-hop de Mumbai, seus sonhos começam a se ampliar e o contato com a arte faz crescer em si o sonho de ser rapper.


As polarizações sociais são base da história. As primeiras oposições apresentadas vêm da tensão  entre as diferentes gerações e seus anseios: enquanto Safeena deseja sair, divertir-se e ter uma vida normal como a de qualquer jovem adulta, os pais da estudante privam sua liberdade e colocam diversas barreiras para que exerça seu direito de estudar. Outra tensão vem entre o conformismo da visão dos pais para a vida profissional de Murad e as inquietudes e sonhos que passam a guiá-lo, levando-o a desejar muito mais para sua vida do que apenas um emprego estável no qual saiba qual é seu lugar sem ousar desafiá-lo. Por último, a maior tensão social de todas: a luta de classes. Desde o início a pobreza é mostrada de forma real e caótica, com o cotidiano da favela aparecendo em toda a sua aglomeração de casas, pessoas e vidas. Todos moram grudados uns nos outros, espiam as vidas alheias e se intrometem nos assuntos uns dos outros. Os tons são terrosos e a cidade, barulhenta. São ambientes com pouco espaço para respirar ou sonhar, transformados em espaço de exotização da pobreza por turistas brancos e ricos. Ao assumir a função do pai como motorista de uma família rica, Murad passa a perceber de forma gutural a desigualdade social. Em contraponto ao seu lugar de origem, lá existe espaço e distância entre as pessoas.  Sente a humilhação de ser invisibilizado e tratado como um acessório sem aspirações ou futuro por seus empregadores. As cenas que mostram a construção desta percepção no personagem são ricas, com Zoya Akhtar mais uma vez fazendo o uso de espelhos como forma de representar o momento em que o mundo interno de um personagem é abalado por seu reflexo externo. É neste contexto que os temas sociais que compõem a música de Murad, o futuro Gully Boy, vão sendo delineados.


Antes do artista Gully Boy nascer, Murad e suas possibilidades já são enxergados por sua namorada de infância. Safeena é uma das personagens mais interessantes de Alia Bhatt. Tem uma garra interna para lutar por seus objetivos convivendo com ciúmes intensos do namorado e um temperamento explosivo. Não me lembro de ver uma personagem tão temperamental de Alia Bhatt, que conseguiu mantê-la realista e muito gostável, mesmo com os excessos cometidos pela personagem. A química entre ela e Ranveer tornou real a cumplicidade entre os personagens. Imagino que muitos jovens possam ter se sentido representados por toda a engenharia social necessária para manter seus encontros amorosos ocultos da família.

A criação do rapper dentro de Murad é a história real do filme, talvez diferenciando-o de outros filmes musicais biográficos em que por vezes o foco parece ser apenas mostrar episódios sucessivos no caminho da fama. Aqui acompanhamos a jornada do artista desde a tomada de consciência do lugar social que inspirará suas letras até o crescimento da confiança indispensável a quem deseja ser rapper. A dificuldade de Murad para participar das temidas batalhas de rap onde os adversários devem destruir a autoconfiança um do outro por meio de suas rimas não é estranha ao espectador, que está acompanhando seu desenvolvimento interno em busca da segurança para batalhar por um novo lugar no mundo. Esta jornada é brilhantemente transmitida pelas músicas, que por si só já fariam um belo filme. Zoya dirigiu brilhantemente cada clipe musical, transformando-os em testemunhos tanto da realidade de Murad quanto registros de sua evolução artística. É impossível não se inspirar pela esperançosa Apna Time Aayega, que insistentemente repete que nossa hora vai chegar, ou refletir sobre o mundo a partir da pobreza aparente em Doori. Ranveer Singh claramente teve uma entrega total ao personagem, que em nada se assemelha a papéis passados e também foge completamente à sua personalidade exuberante. É sempre prazeroso ver o crescimento artístico de um ator que tem tanto amor pelo ofício e que faz escolhas diversas e ousadas. A sua é possivelmente uma das construções de carreira mais brilhantes do cinema hindi em tempos recentes, com um filme envolvente e realista como Gully Boy sendo lançado pouco depois de um masala como Simmba. São escolhas de um artista disposto a conquistar público e crítica por meio de uma carreira sem espaço para zonas de conforto.


Porém Gully Boy não é só Ranveer. Além da já elogiada Alia Bhatt, que nunca me decepcionou (e nem espero que o faça), temos também um elenco coadjuvante de imenso talento. Siddhant Chaturvedi demonstrou confiança como Sher, o MC que desperta em Murad o desejo de ser rapper e acaba atuando como seu mentor. Foi sua estreia no cinema e espero que chegue longe. Kalki Koechkin é uma favorita pessoal com suas coadjuvantes divertidas e interessantes em filmes comerciais (como fez em Yeh Jawani Hai Dewani e Zindagi Na Milegi Dobara), mas gostaria de vê-la em papéis com mais tempo de cena e com espaço para profundidade emocional como acontece em seus filmes cults. Os atores que interpretaram a família de Murad também merecem destaque, em especial Vijay Raaz, intérprete do pai do protagonista. Sua cena em desespero tentando explicar ao filho que a subserviência foi aquilo que aprendeu e ensinou ao filho por entender que era a única forma de sobreviver foi tocante.


Parece que os meses de campanha promocional em que bravamente suportamos Ranveer Singh cantando raps em todos os lugares possíveis recompensaram. Gully Boy é um filme energético e repleto de uma esperança que não é de plástico. Arrisco dizer que este não é um filme sobre uma história pessoal de ascensão, mas sim sobre uma classe que tem sua humanidade diariamente negada. Temas pesados como desigualdade social, islamofobia, machismo, preconceito entre castas e violência doméstica foram abordados sem utilizar de tom professoral ou didático, mas como parte de um cotidiano tão emaranhado e barulhento quanto as vielas de Dharavi. Em seu tratamento delicado e dinâmico de tantos temas e subjetividades de diferentes personagens da classe baixa é possível notar a influência do trabalho de Mira Nair em Salaam Bombay! (1988) sobre a visão de Zoya, assumidamente fã da diretora. O que definitivamente não significa que Gully Boy não tenha personalidade própria. Foi um admirável salto criativo para uma diretora sensível e profundamente humana. Se havia alguma dúvida sobre o potencial de Zoya para contar histórias a partir de novas perspectivas, cada minuto de Gully Boy respondeu ao questionamento com louvor.

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