A família Kapoor #1: Prithviraj Kapoor



A família Kapoor é a linhagem mais duradoura e importante do cinema indiano. Ao longo de cinco gerações nos apresentou a atores e diretores que construíram o cinema hindi como o conhecemos hoje por meio de histórias, canções e personagens inesquecíveis. Dos grandiosos personagens de Prithviraj até o glamour de Kareena, os 91 anos de presença dos Kapoor se confundem com a própria história do cinema indiano. E nesta série de posts conheceremos um pouco mais detalhadamente alguns de seus mais proeminentes membros.

As origens da família Kapoor remontam a Samundari, região do Punjab pré-separação da Índia, em terras que hoje formam o Paquistão. Prithviraj Kapoor foi o primeiro membro da família a buscar uma carreira no cinema - não sem enfrentar resistência do pai, que desejava ver o filho atuando na área do Direito e teve seus planos frustrados quando o rapaz reprovou nas provas de admissão. Prithviraj já era casado com a jovem e doce Ramsarni e pai de três filhos quando deixou a cidade de Peshawar para tentar a vida como ator em Bombay. A aventura foi patrocinada pela prima Kaushalya Khanna, que o via como um filho e não apenas deu dinheiro para que tentasse ser ator, como sustentou sua família durante esse período.

A figura alta e atlética de Prithviraj não passou despercebida pela atriz Emeline, que o viu na fila de figurantes e o convidou para ser o herói do seu próximo filme, Cinema Girl, no distante ano de 1930. E este foi o pontapé para que o ator começasse uma bem-sucedida carreira nos filmes mudos nos Imperial Studios. Sua voz de trovão logo foi ouvida pelo público no filme Alam Ara (1931), obra importantíssima na história do cinema por ser o primeiro filme indiano com som. Em 1932, Prithviraj uniu-se à Grant Anderson Theatrical Company, onde pôde exercer a arte do teatro, que foi seu primeiro amor nas artes. O retorno aos cinemas foi rápido e de muito sucesso durante os anos 40, quando protagonizou diversos filmes. Ele foi um dos primeiros grandes atores a abandonar o sistema de exclusividade com um estúdio, escolhendo a liberdade artística e profissional de fazer filmes em vários estúdios diferentes. Um de seus grandes papéis foi em Sikandar (1941), no qual Prithviraj interpretou Alexandre, o Grande. O filme foi lançado durante o auge das manifestações pelo fim da colonização britânica na Índia. Seu ar patriótico e nacionalista tocou o público, que transformou Prithviraj em um ídolo, chamando-o de Sikandar onde quer que fosse. O filme acabou sendo banido de alguns cinemas que fossem próximos de quartéis de tropas britânicas.

Prithviraj com Randhir no colo, e um jovem Shashi  ao lado. Raj de pé à esquerda e Shammi à direita.

A intensidade artística que veríamos anos depois em seu filho Raj já estava presente em Prithviraj. O ator dava tudo de si aos personagens, chegando a acreditar que precisava sentir dor real para representar dor nas telas, recusando o uso de dublês em cenas de ação ou o uso de microfones. Tanto esforço acabou por afetar sua forte voz, que começou a perder. As mudanças no cinema impactaram a carreira de Prithviraj, cuja teatralidade e imponência eram mais adequadas aos grandes filmes mitológicos e históricos do que aos novos filmes sobre o homem simples e a vida comum. Com o passar dos anos, o ator passou a aceitar papéis em produções menores e personagens de importância reduzida para manter-se ativo.

A origem de tanta dedicação era o amor ao teatro: atuar em diversos filmes era o meio possível para manter sua companhia teatral, o Prithvi Theatres. A companhia foi criada em 1944 e viajava pelo país com diversas peças, envolvendo toda a família em todos os trabalhos. As peças da companhia tratavam de temas sociais importantes para a época. Deewar, por exemplo, ousou falar sobre a rivalidade entre as diferentes comunidades na época da Partição ao abordar uma família dividida entre dois irmãos que lutam pela mesma terra. Já em Pathan ficou ainda mais claro o apelo pela paz entre as diferentes comunidades religiosas por meio da história de duas famílias amigas, sendo uma hindu e a outra muçulmana. As peças eram construídas e discutidas com toda a equipe do teatro, em quem o sentimento de família era bem forte. Este clima era importante para Prithviraj, que valorizava muito a enorme e unida família Khanna, em cuja casa passou grandes períodos de sua infância. Ter perdido a mãe muito cedo trouxe a noção da importância da família e união, levando-o a não apenas ter uma família enorme, como também a receber muitas pessoas na casa da família Kapoor e até mesmo abrigá-las. A qualquer hora do dia era possível entrar no lar da família e desfrutar de um enorme banquete. Até hoje o amor pela comida é uma questão para os Kapoor, com os homens da família tendo fácil ganho de peso que impactou em suas carreiras.

Prithviraj em Mughal-E-Azam (1960)
Após os primeiros anos de muito sucesso, Prithviraj só voltou a experimentar o sucesso em personagens que fez mais tardiamente, como o imperador Akbar no clássico Mughal-E-Azam (1960). Seus últimos anos de carreira foram marcados por filmes pouco importantes em produtoras de baixo orçamento. Mesmo com Prithviraj sendo o pioneiro da família no mundo do cinema, o membro mais famoso e importante da família viria a ser seu filho mais velho. No próximo post da série  família Kapoor conheceremos a fundamental carreira de Raj Kapoor, uma das pedras fundamentais do cinema hindi.


Fontes para consulta:

Dawar, R. (2006). Bollywood: yesterday, today, tomorrow. Star Publications.

Jain, M. (2009). Kapoors: The First Family of Indian Cinema. Penguin UK.

Kapoor, R. & Iyer, M.(2017). Khullam Khulla: Rishi Kapoor Uncensored. HarperCollins.

The Kapoor Family Website. Disponível em: http://www.junglee.org.in/

2 comentários

  1. A família Kapoor tem um altarzinho para prima Kaushalya Khanna, né? Pedra fundamental da dinastia.

    Seu texto vale ouro! Super feliz com a série Kapoor ;)

    Raquel Ribeiro

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    Respostas
    1. Obrigada, Raquel! Estou escrevendo com muito carinho e amo saber que deixou mais alguém feliz como eu estou :)

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E aí, o que tem a dizer? Deewaneie!

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