Thappad (2020)



O pôster de Thappad já prenunciava o desconforto que estaria por vir. A imagem de Taapsee Pannu de olhos fechados, rosto vermelho e inchado e com os cabelos em movimento enquanto levava um violento tapa não era sutil. E o questionamento geral do filme, levantado desde as promoções, era tão simples quanto potente: um único tapa é o suficiente para encerrar um casamento? Muitas horas após ter assistido ao filme, ainda estou sendo perseguida pela questão central e por várias outras levantadas.

Thappad conta a história de Amrita (Taapsee Pannu) e Vikram (Pavail Gulati), um jovem casal extremamente feliz em seu casamento. Amrita escolheu ser dona de casa após o casamento, função desempenhada com alegria e tranquilidade. Todos os seus dias passam sem grandes incidentes enquanto cuida da casa, prepara Vikram para o trabalho e cuida de sua sogra (Tanvi Azmi), com quem tem ótima relação. A harmonia dos seus dias é completamente alterada quando Vikram lhe dá um tapa no momento em que ela tenta apartar uma briga ocorrida durante uma festa em sua casa, na frente de vários convidados. A partir de então Amrita passa a rever a si mesma, seu casamento e família quando decide que um tapa é o suficiente para encerrar a relação.


É até difícil escolher por onde começar a falar de Thappad, um filme que envolve tantas questões, sendo algumas maiores e outras mais sutis. Então vamos começar pelo início. A rotina familiar de Vikram e Amu, apelido de Amrita, chega a ser robótica de tão padronizada. Entretanto, esta parte do filme é tão solar e harmoniosa que uma tensão vai se criando dentro do espectador. Os pais de Amrita (Ratna Pathak Shah e Kumud Mishra) amam o genro, a sogra ama a nora, todos se amam e são felizes. Saber que um breve episódio de violência afetará este equilíbrio doméstico é angustiante. E quando ele finalmente ocorre, conseguimos acompanhar Amrita em sua sensação de brusca ruptura da realidade. O som do tapa é ressaltado, soando como uma breve chicotada. O silêncio que o sucede em meio à humilhação de Amrita contribui ainda mais para compartilharmos da experiência com ela. A partir daquele momento não é mais possível perceber ou sentir aquela vida da mesma forma que antes.

Os momentos e dias seguintes ao evento são construídos com muita competência e sensibilidade para embasar os acontecimentos posteriores. Gostei especialmente da atenção dada a todos os membros presentes na situação, não apenas à Amrita. As vizinhas, o pai de Amrita, até mesmo uma criança são impactados pela cena. E a breve cena no quarto, em que a sogra diz que Amrita deve retornar à festa porque os convidados estavam lá embaixo, posteriormente se revela um dos grandes pontos de virada para a personagem. São tantos pequenos detalhes, falas e até mesmo apenas olhares que minha vontade era retornar várias vezes para acompanhar cada reação. O elenco do filme é absolutamente sensacional.


O luto de Amrita, indo da negação até a raiva, tristeza e finalmente aceitação da realidade que ocorreu, é conduzido lindamente por Taapsee Pannu, em uma atuação que tinha todos os elementos para ser melodramática dado o peso da história. Em vez disso, a atriz entrega uma atuação contida, realista para a personalidade simples de Amrita. A personagem passa a usar branco, como uma viúva, e sua leve alegria de viver dá lugar a uma tristeza que, mesmo intensa, consegue ser acompanhada por uma firme resolução. Amrita reencontra a si mesma e nota tudo de si mesma de que abriu mão sem perceber para adequar-se ao papel da boa esposa. Entretanto, o interessante é que Vikram não é vilanizado - apesar de ser extremamente irritante devido ao sexismo internalizado, levando-o a focar sempre e apenas nas próprias necessidades e ignorar o impacto de suas ações sobre a esposa. O personagem é construído como um homem cujas pequenas amostras de sexismo diárias não são criticadas ou refletidas, nem por ele mesmo e nem por aqueles que o cercam. Ele não é "daqueles" homens que batem nas esposas, como o marido de sua empregada Sunita (Geetika Vidya Ohlyan). Ele é um dos bons. Apenas estava bêbado e passando por um momento ruim. Nem ele, nem sua mãe e nem mesmo alguns membros da família de Amrita conseguem associar aquele tapa impulsivo ao homem que acreditam que ele seja.


O resto do elenco também não deixa a desejar. Minha atuação favorita certamente é a de Kumud Mishra, maravilhoso como o dedicado e sensível pai de Amrita, que desde o início é o único que questiona e se incomoda por a filha ter abandonado a dança após o casamento. Ainda que não tenha sido uma imposição, aquele pai amoroso nota que a dança era uma parte importante da personalidade da filha. Ratna Pathak Shah, que não sabe como atuar um nível abaixo da categoria fantástica, conduz perfeitamente a mãe de Amrita, dividida entre sua visão de que a filha não deve sair do casamento e as reflexões trazidas pelo marido. A química entre Ratna e Kumud é inegável, além de ser interessante o ponto de vista da personagem que mostra que seu marido também não escapou ao sexismo em seu casamento, mesmo que de forma mais sutil. 

Realmente gosto de Dia Mirza e fiquei satisfeita por vê-la mesmo que em poucas cenas como a vizinha viúva e bem-sucedida que observa e acompanha o sofrimento de Amrita ao mesmo tempo em tenta criar a filha de outra forma, com menos sexismo internalizado. A única personagem de quem não gostei tanto foi a advogada Netra Jaisingh (Maya Sarao), dividida entre uma persona pública extremamente feminista e empoderada e uma vida privada presa em um casamento extremamente sexista. Apesar de entender a importância da personagem, que liberta a si mesma a partir das reflexões trazidas pelo caso de Amrita, fiquei um pouco confusa com a função de sua relação extraconjugal na história e não entendi sua decisão final. Por último, a empregada Sunita é provavelmente a personagem que mais produz incômodo na história, sendo a classe de sua personagem o motivo pelo qual muita atenção é dada ao tapa levado por Amrita, mas as agressões diárias que sofre do marido não terem nenhuma relevância para os outros personagens. E é ainda mais aterrador este cenário permanecer assim até o fim, inclusive pela própria Amrita, que em nenhum momento se volta para a violência sofrida pela empregada. Ela é invisível. Ainda que não fosse o foco da história, a presença de Sunita é um indicativo da necessidade de o debate sobre gênero acompanhar o de classe.


Thappad é um filme sobre o pouco que revela muito. Enquanto o assistia pensei nas demonstrações menores de violência que negligenciamos no cotidiano, do quanto de humilhação, vergonha e desrespeito está presente em pequenos atos que não submetemos à crítica consciente - talvez por medo de que revelem verdades difíceis sobre nossas relações que não desejamos encarar. Mais que tudo, é um filme sobre o poder que produzir mudanças em nossas vidas pode ter sobre aqueles que nos cercam. O sexismo entranhado em nós, pessoas de todos os gêneros, raças e classes sociais, está sempre a um pequeno passo de explodir. O diretor Anubhav Sinha, responsável por filmes esquisitos e completamente distantes de questões sociais como Ra.One (2011), parece ter se encontrado nesta nova fase de sua carreira. Está sendo fascinante acompanhar este momento, vindo de um diretor que consegue levantar discussões importantes de uma forma dinâmica e interessante para o cinema comercial. Mesmo com a quebra de ritmo da segunda parte, que pareceu longa, isto não desmerece Thappad. É um filme que ainda segue ressoando dentro de mim e que provavelmente continuará a fazê-lo. Como só o bom cinema consegue fazer.

3 comentários

  1. Texto sensacional, ñ vejo a hora de assistir e voltar pra ler novamente! Parabéns ����

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    1. Obrigada, Vivi! Depois volta para contar suas impressões, aquele ponto que você levantou no Twitter sobre o peso do silêncio é muito interessante.

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  2. Voltei só para enaltecer essa resenha, amei assistir o filme e ao mesmo tempo lembrando desse texto que foi certeiro, também conseguir ter uma perspectiva de pontos diferentes do filme o que me ajudou a entender mais ainda a resenha. Agora aguardando as próximas resenhas! s2

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E aí, o que tem a dizer? Deewaneie!

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